No parto humanizado, o mais importante é o contato, a todo momento, entre mãe e filho, garantindo inúmeros benefícios à vida do bebê

Tenho certeza que o tema “parto humanizado” já cruzou seu caminho, seja por meio de um vídeo publicado nas redes sociais, no bate-papo com a amiga ou até mesmo nos programas de TV. Isso mostra que este modelo de assistência ao parto (conduzido por médicos e enfermeiros obstétricos) vem ganhando força a cada dia, incentivando centenas de hospitais, por exemplo, a criarem áreas próprias para a sua realização. Porém, não é o local onde é feito o parto que o caracteriza como humanizado – já que ele pode acontecer no quarto do hospital, na banheira, no centro cirúrgico, em casa… –, mas sim, oferecer à parturiente a liberdade de escolha, como “a posição em que deseja estar, se alimentar e andar durante o trabalho de parto, estar acompanhada por seus familiares, como também um ambiente respeitoso para o nascimento, com pouca luz, música suave, contato direto com o bebê após o nascimento…”, explica a ginecologista Maria Angela Cury Ramos Carvalho (CRM 71392).

Outra característica da humanização é a ausência de procedimentos antes considerados comuns num parto, que passam a ser realizados apenas quando realmente necessários. “Dessa forma, o tradicional ‘pique’ (episiotomia) deixou de ser realizado rotineiramente, entre tantos outros”, destaca Maria Angela.

A profissional, com 23 anos de experiência na área, acredita que a humanização implica numa mudança de paradigmas. “Tive meus filhos por partos normais convencionais, uma vez que ocorreram há 19 e 16 anos, mas a humanização me fez repensar, estudar, aprender e acreditar que pode ser diferente”, afirma.

Para a enfermeira obstétrica Thaiane Caetano, o parto humanizado vem crescendo porque as mulheres estão se dando conta que o nascimento de uma criança pode e deve ser uma experiência natural e respeitosa, na qual não precisam abrir mão de sua segurança para ter um parto saudável. “No parto humanizado, a mãe será ouvida em suas necessidades, não serão realizadas intervenções que coloquem ela e o bebê em risco e ela não cairá numa cesariana desnecessária – procedimento que apresenta índices bem mais altos de mortalidade tanto materna quanto neonatal –, perdendo assim uma oportunidade única de viver plenamente o nascimento e toda repercussão física e emocional que isso traz”.

Thaiane, que optou pelo parto humanizado há 5 anos para ter seu filho, conta que depois da experiência ficou muito mais atenta aos sinais emitidos pelo seu corpo. “Quando você se entrega nesta jornada como protagonista, a maternidade acontece de forma mais fluida e desafiadora. A mulher está preparada para lidar com isso. Parto é instinto assim como a vida materna!”, afirma a enfermeira.

Outro olhar sobre o parto
No início de sua carreira como ginecologista e obstetra, Flávia Maciel de Aguiar Fernandes de Mendonça (CRM 103074) possuia uma visão muito técnica sobre partos e cesáreas. “Na residência médica, aprendemos a atender a grávida em trabalho de parto com a expectativa constante de que aquele parto venha a se complicar a qualquer momento”, conta Flávia.

Os anos passaram e a obstetra foi trabalhar em uma clínica privada, atendendo pacientes por convênios. “Culturalmente, as mulheres brasileiras optam pela cesárea porque têm medo do parto, da dor e das violências que podem sofrer. Todos estes fatores me levaram a ser uma obstetra ‘cesarista’”.

Com a gravidez do seu 1º filho, aos 35 anos, Flávia se viu aprisionada pelos mesmos fantasmas que assombravam suas pacientes e escolheu a cesárea com hora marcada. “Meu filho nasceu sem nenhum sinal de trabalho de parto. Mal foi apresentado a mim e já o levaram para o berçário, onde ficou longas 5 horas sem meu colo e sem mamar. Naquele momento, senti o impacto da minha decisão. As semanas se passaram, a amamentação foi dificultosa e terminou em desmame precoce. Sentia dificuldades de me vincular com meu bebê”, revela a ginecologista.

Mas, durante uma busca na internet, Flávia conheceu a história da enfermeira Thaiane Caetano, que teve seu parto realizado na própria casa, sem nenhuma intervenção. “Apesar de ter achado aquilo uma loucura, alguma coisa dentro de mim fez todo o sentido. Eu quis conhecer um pouco mais do assunto e, para minha surpresa, descobri que havia muita evidência científica embasando este ‘novo olhar’ sobre o parto”.

Depois de 10 meses de sua descoberta, Flávia engravidou novamente. “A Bianca nasceu em um lindo e transformador parto domiciliar no final de 2013. Após viver na pele a experiência e todos os benefícios que ela traz, voltei a atender obstetrícia em um novo modelo, completamente humanizado”, revela.

Pioneira em Ribeirão Preto – Flávia atendeu o 1º parto humanizado hospitalar na cidade em julho de 2013 –, a médica inspirou outros profissionais a se tornarem adeptos a esse processo. “A maternidade do HEB (Hospital Electro Bonini), por exemplo, foi toda adequada para oferecer um atendimento mais humanizado”.

Na opinião da obstetra, o preconceito que ainda existe em relação ao parto humanizado está relacionado ao total desconhecimento dele. “Uns imaginam que seja um parto assistido por doulas (profissionais que não tem capacitação técnica para o atendimento ao parto, sendo responsáveis pelo suporte emocional e o conforto físico da mulher e sua família); outros que no parto humanizado a mulher não pode fazer uso de nenhum recurso para o alívio da dor; outros imaginam que neste caso a cesárea é proibida. Mas não é nada disso! Parto humanizado é a melhor opção para todas as gestantes porque devolve a elas o poder de decidir sobre todas as questões referentes aos seus partos”, enfatiza Flávia, que é criadora do grupo Geração Mãe (com mais de 16 mil mães unidas virtualmente), que aborda questões relacionadas não só ao parto, mas à gravidez, à amamentação, aos cuidados com o bebê, à criação de filhos, entre outros. (www.geracaomae.com.br).

O parto de uma nova mulher
A vontade de ter sua 1ª filha de parto normal fez com que a decoradora e designer de interiores Sarita Avila escolhesse o parto humanizado. Com 38 semanas de gestação, ela sentiu algumas dores e teve um leve sangramento. “Avisei minha médica e enfermeira por telefone. Como sabia que o bebê poderia nascer com até 42 semanas, busquei manter a vida normal, afinal poderia ser um alarme falso e, se fosse ao hospital, correria o risco de ser levada a uma cirurgia de cesárea precoce e desnecessária”.

Durante à noite, as contrações continuaram de forma muito espaçada, mas levaram Sarita até o hospital, onde soube que estava com 1cm de dilatação. Mesmo assim, ela voltou para casa, sempre com o parto normal humanizado em mente. “Eram contrações leves… Isso se chama pródromo. Parece trabalho de parto, mas não é’”.

No dia seguinte, as dores aumentaram. De volta ao hospital, a dilatação estava em 2cm e as contrações apareciam de 3 em 3 minutos. “A minha médica, a Flávia Junqueira, ouviu o coração da Teodora e estava tudo bem com ela. A Flávia conversou comigo e recomendou que eu voltasse para casa, que me alimentasse bem e deixasse a água quente do chuveiro cair em minhas costas”, lembra Sarita. A todo momento apoiada pelo marido, o empresário Daniel Abbud, ela foi internada para o parto humanizado no mesmo dia, às 20h. “Cheguei com tanta dor que mal conseguia andar e lá estavam a enfermeira obstétrica Thaiane e a Dra. Flávia me esperando”.

Após alguns procedimentos com a intenção de aliviar a dor, Sarita recebeu uma anestesia peridural. “Logo em seguida eu já estava de pé e a bolsa rompeu enquanto eu andava pelo hospital”. Neste momento, com um ambiente todo especial criado por Thaiane (com músicas escolhidas por Sarita, luz indireta e ar condicionado em temperatura agradável), a decoradora já estava com dilatação máxima. Foi então que a médica convidou nossa entrevistada a sentar num banquinho, ficando na posição de cócoras na vertical, para facilitar a saída do bebê pela lei da gravidade.

Entre um abraço e outro do marido durante o trabalho de parto, a designer ainda comeu algumas castanhas, tomou suco, bebeu água e trocou a roupa do hospital por um top que levou na bolsa de maternidade. “A equipe toda foi sensacional! Enquanto eu estava sentada no banquinho, a Dra. Flávia sentou no chão, assim como a Thaiane, me dando apoio psicológico o tempo todo e ouvindo o coração da Teodora”.

Quando Sarita deitou na maca e relaxou, Teodora nasceu, às 3h07 do Dia Internacional da Mulher do ano passado. “O Daniel que cortou o cordão umbilical… Ao todo, foram 40 horas de trabalho de parto. Foi muita emoção! A médica e a enfermeira se abraçaram e choraram… Eu ainda estava meio passada, mas quando colocaram a Teodora em cima de mim, senti um amor inexplicável”, lembra Sarita, emocionada.

Andando, e com a pequena nos braços, Sarita saiu do hospital na manhã seguinte e deu todos os banhos em sua filha, desde o 1º dia. “Respeito as pessoas que optaram pela cesárea. Mas minha experiência com o parto normal humanizado me fez crescer muito como mulher. Meu limite de dor física e psicológica aumentou bastante, assim como minha força para viver e superar desafios. Acho que aflorou a mulher guerreira e forte que existe dentro de mim e isso me faz superar com mais facilidade os desafios em todas as áreas da minha vida, inclusive os da maternidade”, ressalta a designer.

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POR JOANA MORTARI

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