Quer melhorar o diálogo com o seu filho, estimular a criatividade dele e descobrir como eliminar alguns medos que o rodeiam? Seja bem-vindo a nossa matéria de capa!

A busca por um melhor entendimento dessa ferramenta poderosa que é o cérebro nos leva a descobertas incríveis. E se esse órgão é tão importante para nós, adultos, isso não é diferente com as crianças, as quais desenvolverão a sua maturidade emocional por meio de cada grãozinho de aprendizado codificado e arquivado.
Mas não pensem vocês que a mente fará todo o trabalho sozinha. Os pais têm um papel fundamental nesse processo, que poderá definir que tipo de adulto o filho se tornará. São etapas diárias que, feitas com atenção e carinho, resultam em crianças mais preparadas para desafios, decepções e conquistas.

Um estímulo à mente criativa
As crianças, de forma geral, são donas de um potencial, naturalmente, muito criativo. Segundo Gisele Cristina Moisés, psicóloga, os pais têm papel fundamental no processo de desenvolvimento dessa criatividade, estimulando os filhos e procurando identificar suas habilidades específicas. “É preciso apoiá-los, encorajá-los a desenvolver suas mentes, trabalhar com eles de forma lúdica por meio do brincar, dos desenhos, dos jogos e de muita leitura em família”, explica.
O contato com a natureza também é essencial e, por isso, segundo a psicóloga, deve-se levar os pequenos a parques e bosques, sempre os incentivando a explorar o vocabulário e seus discursos. “Passeios culturais como teatro, cinema, circo e livrarias também são riquíssimos! Enquanto as crianças exercitam a imaginação, estão se desenvolvendo intelectual e cognitivamente”.
Mas não é só de oba-oba que a vida de uma criança é feita e as tarefas cotidianas possuem um poder enorme perante os aprendizados. De acordo com Gisele, adequar os compromissos dos pais às agendas dos filhos não é fácil, afinal, para as crianças, muitas atividades são desinteressantes e cabe aos adultos argumentar e convencer da necessidade de aquilo ser feito, mesmo parecendo ser chato, como os horários a serem cumpridos para ir à escola, estudar, fazer tarefas, tomar banho, comer, escovar os dentes, dormir… “Conceitos temporais são difíceis para a mente das crianças. Elas se organizam por meio da rotina, realizando associações de forma intuitiva. Os três pilares importantes para que isso seja viável são o hábito, a rotina e a comunicação”.

Como a mente infantil entende o “não” de seus pais?
A psicóloga afirma que o “não” vindo dos pais, com a intenção de revelar uma questão que evidentemente trará prejuízo, deve ser dito com bastante firmeza e muito bem fundamentado, pois voltar atrás ou ceder às chantagens emocionais das crianças demonstra a vulnerabilidade da resposta (por exemplo: “Hoje você não poderá sair, pois não cumpriu com seus deveres escolares conforme o nosso combinado”). “Mesmo que a princípio a criança se frustre, ela acaba por compreender e respeitar a decisão. Agora, o ‘não’ dito por medo ou insegurança, aquele que aprisiona, ou que não possui argumento que o sustente deve ser evitado”, afirma Gisele.

Enxergue o mundo como uma criança
Primeiramente, é importante destacar que a criança madura não é o adulto precoce, como se acreditava há muito tempo. Isso quer dizer que existem coisas que ela não tem como compreender e seu entendimento é diferente do universo adulto. Ela parece se comunicar de uma maneira mais simples, porém é permeada de afetos e pensamentos que ainda não sabe nomear, ou seja, ela se comunica para entender o que acontece e ir conhecendo o mundo.
Apesar dessa comunicação ser considerada simples, ela, muitas vezes, passa despercebida pelos pais. “A criança se comunica de diferentes maneiras, a todo o momento, não só por meio da linguagem verbal, mas também por meio da brincadeira, que é o enfoque do trabalho terapêutico, por exemplo”, explica Fernanda Kimie T. Mishima-Gomes, Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela USP-RP e especialista em Psicologia Infantil.
Para que os pequenos possam entender os ensinamentos dados por um adulto, segundo Fernanda, as informações precisam ser ditas de maneira clara, segura e cheia de confiança. “Ao invés de exigir algo, como uma imposição ou ordem, os pais precisam fazer o pedido em uma linguagem bem simples e, ao mesmo tempo, transmitir confiança de que aquela atitude será importante. Isso é muito difícil, porque, conforme nos tornamos adultos, deixamos de questionar e de buscar entender o que acontece à nossa volta, agimos de uma maneira mais automática, diferente da criança”, afirma a especialista.

“Meu filho tem medo! E agora?”
Se seu filho já passou por algumas situações que o fizeram sentir medo e insegurança, e você não soube como o auxiliar, tenha calma. Fernanda explica que se a criança não consegue realizar determinado ato é porque não está na idade maturacional para isso ou não se sente segura o suficiente para conseguir algo. “É pensando nisso que os pais precisam acolher os medos dos filhos, entender o que eles significam e que tipo de valor esse medo tem na vida dele. O medo pode ser sinal de alguma disfunção física, por exemplo, ou pode estar relacionado a um aspecto emocional. É preciso tratar o medo da criança com seriedade, interesse, e não com desdém”, aponta a psicóloga.
Então, de que maneira os pais devem ouvir seus filhos? A psicóloga ressalta que eles podem fazer perguntas como “Por que está tão difícil ir à escola?”, “O que aconteceu lá?” ou “O que você imagina que vai acontecer se for à escola?”. Dessa forma, a criança pode se expressar dizendo que tem medo de ficar longe das pessoas que ama, medo de perdê-las ou de ser esquecida. “Ao ouvir a criança, os adultos ‘entram’ em seu mundo, pensam no significado de cada atitude infantil e deixam seu julgamento de lado”.

Quando devo procurar um psicólogo para o meu filho?
De acordo com Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis, psicóloga, psicanalista e Mestre e Doutora em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, as crianças podem apresentar vários sinais de que estão precisando de atendimento psicológico, como queda no rendimento escolar, retraimento social, falta de motivação para brincar, inibição de atividade motora (a criança fica muito inativa), agressividade exagerada, terrores noturnos (frequentes) e medos excessivos (de ficar sozinha, animais, escuro, personagens de histórias – também quando muito frequentes). “Quando se fala de quais sinais indicam necessidade de acompanhamento psicológico, há o perigo de se considerar comportamentos próprios da infância como sendo problemas psicológicos. Os pais precisam tomar cuidado para não ‘patologizar’ a infância. A criança é naturalmente ativa, medrosa, fantasiosa… o que vai determinar se há algum problema psicológico é o excesso e o exagero que se nota nos comportamentos”.
Mas quando é possível considerar que determinado comportamento dos filhos está exagerado? De acordo com Bernadete, não há mensuração precisa quando se trata de emoções ou se está no universo psíquico. No entanto, segundo ela, os adultos podem contar com sua condição inestimável e incalculável de sensibilidade e observação. “O olhar para a criança inclui ir além do que é visível, inclui fazer contato com o que não se vê, mas se sente. Se houver algum sinal de alerta, o psicólogo deverá ser procurado e ele dará a última palavra sobre a necessidade ou não de um acompanhamento psicológico”.

Se preocupe com a saúde mental do seu filho!
Sabemos que o bem-estar emocional é base para um desenvolvimento saudável da criança na família, na escola e na vida social. Por isso, se a criança requer algum cuidado psicológico, os pais devem ser claros, evitando mentiras ou subterfúgios para levá-la ao psicólogo. Bernadete, por exemplo, costuma recomendar que os pais falem com a criança referindo-se a algum sintoma que seja evidente para ela, dizendo que aquilo precisa de ser visto por um profissional que vai ajudá-la a saber o que está acontecendo.
Durante o acompanhamento psicológico, Bernadete explica que é muito importante que os pais estejam aliados ao psicólogo, especialmente quando a criança apresenta dificuldade para ir às sessões. “Da mesma forma que eles encontram argumentos criativos para incentivarem ou convencerem os filhos de irem ao médico, também podem usar seus recursos, sempre respeitosos e amorosos, para ajudarem seus filhos a irem ao psicólogo”.
Para colher bons frutos é preciso paciência e persistência
Esse menininho lindo que abriu a nossa matéria de capa se chama Murilo Baltazar Targa Alves, tem 3 anos e meio e curte muitos momentos felizes ao lado de seus pais Venisse e Wilmar.
A mãe de Murilo conta que desde a gravidez procurou estimular o filho, como quando colocava para tocar, próximo à barriga, músicas de várias línguas e estilos. “Um grande amigo que é professor de música me disse que isso ajudaria o Murilo a ter mais facilidade de aprendizado”.
O quarto do pequeno foi um ambiente que o casal elaborou seguindo conceitos montessorianos, como deixar tudo ao alcance da criança, estimulando o aprendizado e a independência de forma natural. Assim que o Murilinho começou a engatinhar, Venisse descia com ele para a área de lazer do seu prédio, o que além de estimular que o pequeno tivesse contato com as texturas diferentes do chão, da grama e do azulejo, permitiu que a mãe fizesse novas amizades e descobrisse a experiência de outras mães que aproveitavam os benefícios do mesmo espaço.


Em relação aos sacrifícios e as mudanças que os pais fazem para estimular, em vários sentidos, o crescimento saudável do filho, Venisse conta que eles acarretaram uma mudança total na vida da sua família. “A gente muda desde o jeito de falar, até a alimentação e a rotina. Se você tinha o costume de falar palavrões, por exemplo, procura não falar mais. Se é sedentário, tenta ir mais aos parques para poder oferecer um maior número de atividades para o filho…”.
E quando o assunto é brincar, a mãe de Murilo conta que ele adora inúmeras atividades, desde praticar os acertos no joguinho da memória, tentar ganhar do papai no videogame ou andar de bicicleta no parque com a família reunida. “O Murilo é muito obediente. Mas nós também sempre fomos de colocar limites. A minha educação foi mais rígida que a do meu marido, porém lá em casa nós respeitamos muito o que o outro fala para o nosso filho. Mesmo que um não concorde com uma ordem, só iremos falar sobre isso longe dele, para não tirar a autoridade de nenhum dos dois”, revela Venisse.
A auxiliar administrativa sempre diz as pessoas que ter um filho foi a melhor coisa que ela já fez na vida e a mais cansativa também! “Tem que ter muita paciência e persistência, assim os resultados com a educação dos filhos aparecem. Eles entendem perfeitamente todo esse amor e as consequências que surgem dele são as melhores possíveis”, finaliza a mãe.

Por Joana Mortari – Fotos Zoro Seixas

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